Sempre gostou de ficar sozinha. Desde criança, cultivava uma solidão que lhe era instrínseca, uma necessidade quase que corpórea de abandonar os laços com o mundo exterior e olhar para dentro. Fechar as portas do quarto e abrir as portas para a alma era mais que uma introspecção, era um ritual.
As vezes, Ela apenas ouvia seu rádio de pilhas deitada no chão de tacos envernizados em sua casa de infância.
Outras vezes, apagava as luzes e tomava banho no escuro ao som de uma velha valsa catalisadora.
A alma, ainda que receosa, no fim, quase sempre acabava desprendendo-se do fundo do corpo e emergindo à superfície. Esbranquiçada e sem fôlego, a alma tomava ar e cor, pesava toneladas e flutuava. Dava o ar da graça e engraçava o ar daquela menina descolorida.
Dar fôlego à alma sempre foi uma necessidade latente.
Até que Ela mudou-se e mudou.
Ao romper os laços geográficos, Ela cresceu e sentiu-se mais viva até que seu corpo deixou de habitar a pequena caixa de sapatos que habitara desde sempre até então. O transbordamento, ansiado por tantos anos, teve a pior das reações adversas: não deu vazão à alma.
Estremecida com a imensidão dos novos mares, a alma encapsulou-se. Desceu ao fundo do que ainda conhecia como corpo e passou a resistir às tímidas chamadas que Ela raramente ensaiava.
Alma e corpo distantes. A ordinariedade instrincava-se no corpo que esquecia-se lentamente o que era profundo.
Desconcronizada, Ela evitava a solidão.
Se, de um lado, a superficialidade de seu corpo lhe repugnava, de outro, o abismo dentro de si lhe causava vertigem.
Sua única disposição de espírito era esperar e confiar no tempo. O grande e inefável senhor do relógio. O único deus no qual Ela ainda acreditava.
So the waves and I found the rolling tide
So the waves and I found the rip tide