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Sunday, December 28, 2008

Sentiment éternel

Não pertence àquele lugar. Não por causa das pessoas, das circunstâncias. Talvez seja, mas ela não pensa nisso.
O que ela sabe e crê, segura, é que não cabe naquele lugar.
O que acontece não é só um sentimento de segregação. É uma divisão clara, mas imaginária que ela criou para definir o que pertence e o que não pertence ao seu lugar. Quase nada ali pertence.
Ela sabe que é assim. Não se pede para ser assim. Simplesmente se é.
Ela também sabe que isso tudo pode ser fruto de seus clichês. Sua mania aficcionada de transcender conceitos cristalizados em coisas pré-concebidas.
Ela suspeita que, no fundo, profundamente, isso é efeito de seus idealismos. Que é tudo utopia, uma quimera bem fantasiada de sonho realizável.
Há dias que acorda e, de fato, acredita que é póssível juntar suas coisas, botar numa mala e sair dali em busca do lugar que existe em sua alma.
Como anseia partir sem culpa, sem desculpas. Assumir o processo natural do seu coração, o fluxo insaciável dos seus desejos.
Mas há dias que acorda e tem certeza de estar fadada à real realidade.


Vitrola: I Believe in You - Cat Power

Sunday, December 14, 2008

Les Hazards

Sempre tão sutis, chegam leves como brisa e parecem não fazer questão de fazer sentido. Pelo menos à primeira impressão. Somados, eles constroem histórias.

Define-se acaso como aquelas situações, cujos personagens não fizeram acontecer. Ou seja, os acontecimentos não planejados.

A beleza dos acasos, na minha concepção, é magnífica. Fatos casuais e oportunos tecem como teia o destino de quem se deixa ser ensinado pela vida.

E não se trata de viver ao léu, ao Deus-dará. Não. Trata-se de conduzir a própria existência com inocência, sensibilidade e discernimento. A ânsia de controlar o futuro é nada mais que inútil. Não temos controle sobre o que vem à nós. O que será a vida amanhã é um mistério hoje. Isso não é novidade.

Então por que não viver sensível aos acasos que pertencem ao presente e não acontecem por necessidades cotidianas?

Eu aspiro viver os acasos à maneira que merecem. Não perder seus significados, suas metáforas. Porque o amor pode nascer de uma metáfora...





Mas, muito pelo contrário, será que um acontecimento não se torna mais importante e carregado de significação se depende de um número maior de acasos?
A presença de Tomas no restaurante foi para Tereza a manifestação do acaso absoluto. Estava sozinho a uma mesa diante de um livro aberto. Levantou os olhos para ela e sorriu: "Um conhaque!". Naquele momento, o rádio tocava uma música. Tereza foi buscar um conhaque e girou o botão do aparelho para aumentar o volume.
Havia reconhecido Beethoven.
Pediu-lhe a conta. Fechou o livro (sinal de identificação de uma irmandade secreta) e ela sentiu vontade de saber o que ele estava lendo.
Um pouco mais tarde, acompanhou-o até a estação e, no momento de deixá-la, ele lhe entregou um cartão de visita com seu número de telefone: "Se por acaso um dia você for à Praga..."
Muito mais que aquele cartão de visita que ele lhe entregou no último momento, foi aquele chamado dos acasos (o livro, Beethoven, o banco amarelo da praça) que deu a Tereza a coragem de sair de casa e de mudar seu destino. Talvez tenham sido aqueles poucos acasos (por sinal bem modestos e banais, realmente dignos daquela cidadezinha insignificante) que acionaram seu amor e se tornaram a fonte de energia e que ela se abasteceu até o fim.

Somente o acaso tem voz.
Só o acaso pode nos parecer uma mensagem. Aquilo que acontece por necessidade, aquilo que é esperado e se repete cotidianamente é coisa muda apenas.

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Vitrola: Hard Sun - Eddie Vedder

Thursday, December 4, 2008

Circunspecção

Atitudes impulsivas nem sempre provêm de pessoas ousadas e determinadas. Na verdade, acho que, na imensa maioria dos casos, são as pessoas incertas que acabam por agir sem pensar.
A incerteza pode exercer dois efeitos: retração ou arrebatamento.
A retração é simples, por não estar segura, a pessoa inibe suas atitudes.
O segundo caso é um caminho escolhido. Opta-se (inconscientemente) por cancelar, adiar ou evitar a reflexão acerca de qualquer dualidade.
Os motivos são vários, medo de decidir, de olhar para os próprios problemas, de admitir as próprias limitações ou, pior, a impulsividade pode ser uma espécie de subterfúgio para inibir a sensação de impossibilidade frente à própria vida.
Pode ser uma covardia, é verdade, mas pessoas que tomam atitudes bruscas, apressadas e infundadas geralmente criam consigo um pequeno caos de estimação.


[two hundred forty seven ways to tell something but you use just the one which puts me in doubt]


Vitrola: Les Jours Tristes - Yann Tiersen