Sempre tão sutis, chegam leves como brisa e parecem não fazer questão de fazer sentido. Pelo menos à primeira impressão. Somados, eles constroem histórias.
Define-se acaso como aquelas situações, cujos personagens não fizeram acontecer. Ou seja, os acontecimentos não planejados.
A beleza dos acasos, na minha concepção, é magnífica. Fatos casuais e oportunos tecem como teia o destino de quem se deixa ser ensinado pela vida.
E não se trata de viver ao léu, ao Deus-dará. Não. Trata-se de conduzir a própria existência com inocência, sensibilidade e discernimento. A ânsia de controlar o futuro é nada mais que inútil. Não temos controle sobre o que vem à nós. O que será a vida amanhã é um mistério hoje. Isso não é novidade.
Então por que não viver sensível aos acasos que pertencem ao presente e não acontecem por necessidades cotidianas?
Eu aspiro viver os acasos à maneira que merecem. Não perder seus significados, suas metáforas. Porque o amor pode nascer de uma metáfora...
Mas, muito pelo contrário, será que um acontecimento não se torna mais importante e carregado de significação se depende de um número maior de acasos?
A presença de Tomas no restaurante foi para Tereza a manifestação do acaso absoluto. Estava sozinho a uma mesa diante de um livro aberto. Levantou os olhos para ela e sorriu: "Um conhaque!". Naquele momento, o rádio tocava uma música. Tereza foi buscar um conhaque e girou o botão do aparelho para aumentar o volume.
Havia reconhecido Beethoven.
Pediu-lhe a conta. Fechou o livro (sinal de identificação de uma irmandade secreta) e ela sentiu vontade de saber o que ele estava lendo.
Um pouco mais tarde, acompanhou-o até a estação e, no momento de deixá-la, ele lhe entregou um cartão de visita com seu número de telefone: "Se por acaso um dia você for à Praga..."
Muito mais que aquele cartão de visita que ele lhe entregou no último momento, foi aquele chamado dos acasos (o livro, Beethoven, o banco amarelo da praça) que deu a Tereza a coragem de sair de casa e de mudar seu destino. Talvez tenham sido aqueles poucos acasos (por sinal bem modestos e banais, realmente dignos daquela cidadezinha insignificante) que acionaram seu amor e se tornaram a fonte de energia e que ela se abasteceu até o fim.
Somente o acaso tem voz.
Só o acaso pode nos parecer uma mensagem. Aquilo que acontece por necessidade, aquilo que é esperado e se repete cotidianamente é coisa muda apenas.
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Vitrola: Hard Sun - Eddie Vedder
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