CLICK HERE FOR BLOGGER TEMPLATES AND MYSPACE LAYOUTS »

Friday, March 27, 2020

Há quase exatamente um ano atrás, ela sentou para escrever algumas palavras.

Essa vontade só surgia de vez em nunca. Era necessário um conjunto de requerimentos específicos de set and setting que raramente se combinavam. Precisava estar triste, o que era até comum, mas também tinha que sentir o tempo meio devagar. Era impreterível a sensação de descer do mundo e subir à superfície. Tinha que olhar pra alma mesmo com vergonha.Olhar para quem era. Pra quem havia sido. Escreveu assim:

Era quarentena de Corona vírus. Março de 2020. 
Havia se tornado um pouco comum que amigos se ligassem por vídeo para saber como estavam. Meio que magicamente, as pessoas passaram a não ter como dizer que estavam ocupadíssimas e, pra dizer a verdade, era até bom ver um rosto amigo após passar dias a fio em casa. 
Ele estava no sofá e conversava com umas pessoas que ela não conhecia enquanto ela, silenciosamente e sem lhe dirigir a palavra, passava pela sala. Recolheu umas roupas do varal, fez sopa de feijão, tomou banho e fechou-se no quarto novamente. Mesmo quarto no qual havia se prolongado pelas duas horas de silêncio que antecederam o varal e a sopa.
O silêncio lhe dava asco. Nunca havia aprendido a lidar com silêncio pacífico, quem dirá com silêncio hostil.
Tinha vontade de pegar o silêncio e quebrá-lo com uma machadada.
Essa era a hora em que se convencia que não queria mais. Que não precisava daquilo, que merecia mais amor, mais compreensão. Afinal, se aconselhava, amor não é duro, amor acolhe...
Na sequência, se auto-refutava pensando (e recorrendo àquele vídeo da School of Life) que essa busca pelo ideal do amor parental é a maior balela já inventada. Quando foi que se estabeleceu que esse amor tão amoroso existe? Pois quase nunca existe e, quando existe, imaginava, era algo como encontrar um bilhete premiado da loteria no chão de um banheiro público. Enquanto isso, todos os outros reles mortais continuavam a bater com a cabeça na parede com amores mancos.
Mudar. Quem é que consegue mudar? Dá pra acreditar em mudar?
Será que não era a hora de ser pragmática e desapegar da história? Da tal beleza dos acasos, outrora tão relevante? 
Súbito, o ar lhe pareceu rarefeito. Chega. Quis subir no mundo, submergir às entranhas, comer a sopa.

0 comentários: